quinta-feira, 11 de junho de 2015

Uma introdução - de Brecht ao Drama Social





O termo teatro épico foi utilizado pela primeira vez por Erwin Piscator (1893-1966), sendo sistematizado por Brecht que se apropria do termo como expressão para o teatro que ele buscava, uma contraposição ao realismo científico e ao realismo socialista. Nesta forma de teatro moderno o diretor e dramaturgo alemão buscava promover uma atitude crítico-reflexiva frente a realidade e ao contexto histórico e social em que as pessoas da plateia estavam inseridas por meio de suas obras.
Segundo Peixoto (1979) Brecht passa a se declarar marxista no final da década de 20 do século XX e passa a desenvolver pesquisas e experimentações cênicas pensando os conceitos do materialismo histórico dialético em cena. Estuda o marxismo a partir das formulações de Karl Korsch (1886-1961), de quem era amigo pessoal. 
Com base nisso desenvolve diversos espetáculos tratando de temas sociais, evidenciando as incoerências da sociedade e os processos de criação ou manutenção de diferentes tipos de consciência em seus personagens, que se distanciavam muito do herói socialista, agindo mais como anti-heróis, levados as ações positivas por força das circunstâncias e não por ideais bem definidos.
Com uma dramaturgia fortemente influenciada por esses pressupostos Brecht investiga técnicas que poderiam ajudar a promover a reflexão e o pensamento crítico por meio de seus espetáculos. O Verfremdungseffekt, ou Efeito de Estranhamento/Distanciamento foi uma dessas técnicas, utilizada por Brecht como uma elaboração estética que objetivava quebrar o efeito ilusório atribuído ao teatro pelo realismo, afim de que o espectador pudesse visualizar e analisar a situações posta em cena de maneira crítica e não por meio da empatia. O V-Effekt como também era chamado, tem sua raiz no ostranenie elaborado pelo formalista e cenógrafo russo Viktor Chklovski (1893-1984).
A comédia foi um elemento fundamental utilizado para provocar o estranhamento (Rosenfeld, 2010, p. 157). O teatro brechtiano sempre teve como principal objetivo divertir, um teatro onde se possa fumar, um teatro que faça ir. O senso de humor é essencial para se compreender a filosofia e a realidade, o cômico lança luz aos absurdos do cotidiano, é necessário distanciamento emotivo para rir. A comédia quando utilizada como como aparato crítico vira sátira, muito presente na dramaturgia brechtiana. Neste tipo de comédia temos como constante o corpo e uma habilidade mímica e acrobática muito bem definida, um exagero do movimento e da postura corporal cotidiana visando o riso.
O Gestus é a materialização de um determinado conflito da personagem, colocado como ação/imagem e não como texto para que o espectador perceba a humanidade e a profundidade dos personagens, geralmente ligado ao contexto em que ele está inserido. Ele serve ao estranhamento a medida que promove o desequilíbrio e a não linearidade do personagem e gera um desconforto no espectador, levando-o a pensar a real natureza das ações realizadas pelo personagem, suas motivações e o ambiente que o produz.
Nas performances culturais podemos utilizar diversas categorias desenvolvidas por Richard Schechner (1934-), Victor Turner (1920-1983) e por outros autores utilizados nos estudos das performances. Alguns conceitos são facilmente identificáveis como: comportamento restaurado, não eu e não não-eu, liminaridade, drama social, sequencia total da performance e outras. Tomo aqui o conceito o drama social para uma primeira aproximação. Segundo Turner (1996) dramas sociais:
representam uma complexa interação entre padrões normativos estabelecidos no curso de regularidades profundas de condicionamento e da experiência social e as aspirações imediatas, ambições ou outros objetivos e lutas conscientes de grupos ou indivíduos no aqui e no agora. (TURNER, 1996, p. XXII) 
      Se entendemos os dramas sociais nessa perspectiva, o drama social modifica a realidade promovendo uma experiencia, presentificando uma tensão social, um conflito que promove, em uma apropriação dos ritos de passagem, uma ruptura, crise, intensificação da crise, reparação e desfecho. Quando analisamos o gestus brechtiano percebemos que ele traz em sua visão dialética do mundo, presentificando questão como a luta de classes e a alienação. Tanto em espetáculos de Brecht, como Mãe Coragem e Seus Filhos, quanto em cenas de filmes como tempos modernos. O gestus se constrói em uma sequência que evidencia a ação/drama, com o objetivo de fazer a audiência refletir, uma crise na consciência.


Referências bibliográficas

PEIXOTO, F. Brecht: Vida e Obra. 3. Ed. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1974.
TURNER, Victor. Schism and continuity in an African society. Manchester: Manchester University Press, 1996 [1957].

ROSENFELD, A. O Teatro Épico. 6. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.

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